Saiba mais sobre a origem dos vinhos da selecção de Dezembro

O território que é hoje Portugal, apresenta uma muito longa história, com milénios de existência. Inúmeras civilizações estabeleceram-se aqui e contribuíram das mais diversas formas para a formação humana, social e cultural do nosso fantástico e diversificado país.

Nada melhor do que conhecer um pouco da história das regiões de origem dos vinhos da seleção deste mês, fazendo com que ao beber um copo, "sinta" o sabor, história e particularidades de cada uma destas zonas do país.

 

Alentejo

Para se perceber todo o longo contexto histórico do Alentejo, casa dos vinhos Alento Reserva, Alcunha e Grande Escolha by Paulo Laureano, é preciso recuar até aos tempos da cultura megalítica. O Cromeleque dos Almendres (perto de Évora), do qual nos podemos orgulhar de ser um dos mais importantes monumentos deste período em toda a Europa, testemunha isso mesmo. Este não é o único monumento pré-histórico e existem diversos menires e cromeleques espalhados por toda a região, embora de dimensões menos consideráveis que o dos Almendres.

Mais tarde, a civilização romana deixou enormes marcas nesta região. Presume-se (apesar da alguma incerteza), que possam ter sido os Romanos a desenvolver e modernizar a cultura da vinha, mesmo sabendo que a mesma já aqui existia antes da chegada destes. Deixaram marca nas cidades alentejanas e influenciaram as populações locais, no seu processo de Romanização em que deixaram inúmeros monumentos, como é o caso do famoso Templo de Diana em Évora, das ruínas de São Cucufate na Vidigueira ou das ruínas da grande cidade de Ammaia perto de Portalegre.

Depois veio a civilização árabe, com uma influência bastante notória aqui, fruto de uma presença de mais de 500 anos. Os mouros deixaram um grande legado cultural, arquitetónico, genético e gastronómico. A atual Igreja matriz de Mértola, uma antiga Mesquita que aquando da reconquista cristã foi adaptada a igreja, mantém ainda os traços arquitetónicos de origem árabe. Estes introduziram também inúmeras técnicas agrícolas na região, como é o caso das noras ou o cultivo da oliveira, da figueira ou da amendoeira. Outra herança relevante deixada foi ao nível urbanístico: o traçado sinuosos das ruas das vilas, cidades e aldeias alentejanas, de ruas estreitas e pátios lembram bem as cidades árabes. As próprias casas alentejanas herdaram características das mesmas, onde se destacam o seu traçado e formato térreo, caiadas de branco, factor que ajuda os habitantes a melhor se defenderem dos tórridos dias de verão. Por fim, a herança genética, que pode explicar a razão dos alentejanos terem uma tez mais morena.

Aquando da reconquista cristã aos árabes, os primeiros reis Portugueses permitiram a que a população árabe e judaica continuasse a habitar nestes territórios, desde que pagassem um tributo à coroa e assim, formaram-se mourarias e judiarias nas cidades e vilas do Alentejo. Foram nesta época também construídos inúmeros castelos e fortalezas de forma a proteger os habitantes de eventuais ataques dos vizinhos Castelhanos.

Douro

O Douro, origem do Quinta Alta Reserva foi ocupado por diversos povos da antiguidade. Celtas, castrejas, suevos, romanos e árabes, todos estes aqui se estabeleceram e trouxeram múltiplas influências, tornando-se assim esta numa das grande e históricas regiões vinícolas do mundo com características singulares, o que fez com que toda esta região fosse declarada Património da Humanidade pela UNESCO.

As videiras crescem nesta região desde a antiguidade e sabe-se que os romanos faziam vinho nas margens íngremes do Douro, durante a sua longa ocupação da Península Ibérica.

A região a partir do Séc. XIII começou a assistir a um maior desenvolvimento económico: a produção de vinho foi-se desenvolvendo e o Porto assumia-se já como importante cidade costeira e entreposto comercial. Com os descobrimentos marítimos portugueses dos séculos XV e XVI, aumentou ainda mais a circulação no rio, muito devido a um maior aumento e desenvolvimento do comércio internacional.

A partir do século XVII, a Inglaterra passou a ser o principal consumidor dos vinhos do Douro, tendo-se por isto, assinado o Tratado de Methuen, em 1703 entre Portugal e o Reino Unido, em que se concediam aos ingleses direitos preferenciais sobre os vinhos portugueses, com a contrapartida de Portugal permitir a entrada livre dos tecidos britânicos no mercado nacional.

Esta região teve sempre grande influência estrangeira, principalmente inglesa. O investimento ao longo dos séculos nesta zona reflete-se em numerosas famílias do Porto que têm origem inglesa. O vinho do Porto “Taylor´s” é um exemplo deste investimento inglês nas vinhas do Douro, continuando os descendentes desta família a habitar no nosso país.

Mais tarde, o Marquês de Pombal alterou os termos e criou a primeira região vitícola regulamentada do mundo, ao demarcar o Douro Vinhateiro (1757-1761). Foi também nesta altura que o Secretário de Estado do Reino criou a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (CGAVAD), em 1756, tendo vindo a obter-se a “exclusividade” na venda de vinho do Porto.

Tejo

Berço do Escaravelho Ineditus, a Região Demarcada do Tejo enquadra-se quase na sua totalidade no Ribatejo. Dominada por diversos povos ao longo dos tempos, pensa-se que foi há quase 3000 anos que os primeiros fenícios, navegaram até à costa portuguesa e se estabeleceram no estuário do Tejo. Mais tarde, navegaram o Rio Tejo para norte, provavelmente até onde se encontra atualmente a cidade de Santarém. Poderão ter sido estes os primeiros a criar e desenvolver a cultura da vinha e da oliveira neste território. O Ribatejo tem também azeites, provenientes alguns deles de oliveiras milenares introduzidas aqui por esses povos antigos.

O atual Ribatejo foi importante no processo de formação de Portugal durante a reconquista cristã aos mouros. Os primeiros reis portugueses confiaram às ordens militares extensos territórios, principalmente a sul do Tejo, como forma de os povoar, organizar e defender a nova pátria. Assim começou-se a assistir ao desenvolvimento económico desta região: D. Sancho I doou estes territórios à Ordem de Santiago, uma imensidão que abrangia toda a margem esquerda do Tejo. Os freires de Santiago, os primeiros a referir-se a estas terras de Ribatejo, assim lhes chamavam às terras entre o ribeiro das Enguias e a ribeira de Coina.

Iniciou-se  assim um maior desenvolvimento económico da região. Ao arar os solos e a investir-se em diversas culturas agrícolas, principalmente a oliveira, a figueira e claro, a vinha, foram assentes as bases para os os excelentes vinhos e azeites que perduram até aos dias de hoje!

 

 

Lisboa

O Adega Belém vem da Região Demarcada dos Vinhos de Lisboa, enquadrada quase na sua totalidade no Oeste de Portugal, antiga província da Estremadura.

Esta região faz fronteira com o mar a oeste e com o Ribatejo a este. Assim, as características históricas assemelham-se muito às do Ribatejo, tendo no entanto a particularidade de haver uma grande ligação ao mar. Os fenícios chegaram às margens do Tejo e podem ter introduzido a cultura da vinha no atual Ribatejo, mas como povo de navegadores, procuraram instalar-se junto à costa, fundando portos e feitorias. Exemplo disto é o caso da Ericeira e da Nazaré, onde se julga que estas vilas piscatórias possam ter tido a mesma origem fenícia, tal como os seus habitantes.

Os romanos e árabes tiveram também uma influência considerável nestes territórios, onde se destacam os vestígios arqueológicos que ambos aqui deixaram. Os árabes deixaram vestígios consideráveis no urbanismo das cidades e vilas do Oeste ainda hoje visíveis, e também na toponímia de muitos destes locais, principalmente as localidades com nomes começados por “Al”, como por exemplo Alcobaça, Aljubarrota, Almargem do Bispo ou Alenquer.

Durante a reconquista cristã aos muçulmanos, o atual Oeste, tal como aconteceu com o Ribatejo, ficou sob administração de ordens religiosas e militares, que contribuíram para o seu desenvolvimento económico, como a ordem de Cister que governou uma extensa área entre Leiria e Bombarral. Colonos de diversas regiões começaram a ocupar os locais mais desertos, vindos do norte e centro de Portugal, mas também de outros locais da Europa, principalmente francos da atual França, e a quem se deve também o nome de algumas povoações, como A-dos-Francos ou Vila Franca do Rosário.

 

Beber um copo de vinho sabendo a história por debaixo das raízes da videira consegue de facto trazer mais encanto ao momento e entender melhor o que bebemos.
Saúde!

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